O porquê dos orgânicos terem valor mais alto

Faz dois anos que acompanho o mercado de orgânicos, mais especificamente aqui em Sorocaba. No meio dessa transição enorme que estamos passando, principalmente por hábitos mais saudáveis, uma das travas para que esses produtos cheguem na mesa de todos aqueles que se interessam por uma alimentação mais limpa, acaba sendo o preço. Junto de alguns produtores, quebramos a cabeça várias vezes para que o orgânico seja cada vez mais acessível, mas existe uma série de “porquês” para que isso não se torne realidade atualmente.

Primeiramente, o trabalho no campo é muito árduo. Não utilizar agrotóxicos e nenhum tipo de fertilizante químico aumenta o esforço do agricultor infinitamente. Passar um dia no campo é uma lição de vida bastante informativa para quem se interessa por esse tipo de alimentação. Enfrentar um sol de rachar, retirar todas as pragas na mão e colher sem nenhum tipo de engenharia ultramoderna, faz com que você repense o papel de quem está no campo. É muito mais fácil e bem mais lucrativo trabalhar na base de componentes químicos, mas esses guerreiros estão dispostos a produzir exclusivamente para você.

Outra barreira que faz com que o preço aumente é pela produção não ser em grande escala, como os convencionais são. O transporte e as vendas acabam caindo nas costas daquele mesmo produtor que estava no sol durante o dia. Aí você inclui a manutenção de uma caminhonete e combustível. Um dia de trabalho numa feira ou se locomover para algum tipo de estudo, por exemplo, é um dia a menos de produção. É muita responsabilidade nas costas de poucas pessoas, essas que encontram uma enorme dificuldade em ter mais envolvidos trabalhando junto.

Mas falaremos agora do grande ponto. Para que o produto chegue com garantia nas mãos do consumidor final, existe uma série de exigências burocráticas. Esse talvez seja o grande desafio. Em um passado não muito distante, existiram alguns atravessadores que vendiam produtos se passando por orgânicos, mas que na verdade eram cheios de veneno. Assim, as certificadoras foram criadas para que não haja dúvidas em relação ao alimento na sua mesa.

Primeiramente, temos as Organizações de Controle Social (OCS), essas fazem com que os agricultores criem um grupo e eles mesmos se fiscalizem. Porém, nesse caso, apenas a venda direta é permitida, como feiras ou entregas em domicílio. O custo para se trabalhar com esse tipo de certificação é mais viável, mas exige uma organização bastante funcional entre os envolvidos e uma responsabilidade gigantesca entre eles.

Como o nome orgânico virou um termo de mercado, para se estrar nele o buraco é mais embaixo. Existem as certificadoras particulares, que são todas credenciadas e garantem o uso do selo do “Orgânicos Brasil”,  que você deve estar acostumado a ver em alguns produtos no supermercado. Para conseguir essa licença, muito dinheiro é envolvido no andamento. Primeiro é preciso entrar com o processo de certificação, que varia em torno de R$ 2 mil anualmente, mais a análise de solo e de água e por fim toda a burocracia que o produtor tem que encarar, desde uma auditoria a uma série de documentos que devem ser preenchidos. Essa certificação dá o direito de vender para restaurantes e mercados, mas para os produtos entrarem nas prateleiras ainda vai mais embalagem e etiqueta, que aumentam o preço do produto final.

Outra saída é a Comunidade que Sustenta a Agricultura (CSA). Essa que no caso você entra como investidor de uma propriedade rural e semanalmente retira os alimentos que foram colhidos de acordo com a produção. Aqui você tem que ter uma disponibilidade para ir retirar o seu produto e encarar a sazonalidade de forma mais autêntica, pois uma chuva de granizo pode prejudicar um trabalho de um mês ou em épocas que só te permite recolher hortaliças, por exemplo.

Enfim, esses são alguns “porquês” que eu encontrei para que o preço do orgânico seja inacessível para alguns consumidores. Em contraponto, existe o lance da demanda, em algumas feiras, por exemplo, se o agricultor voltar com o seu carro vazio para casa, quer dizer que ele já pode baixar o custo do seu produto. Mas até isso a gente tem que pensar na hora de colocar o preço no papel. Trabalhar com a perda gera em si um valor maior.

Se você quiser ir mais além, os produtos orgânicos geram mais saúde para você. Existem alguns médicos que estão se especializando na cura com a alimentação em vez do uso de remédios. Quanto você gasta com medicamentos atualmente? De repente pode rolar uma inversão de valores e o preço se mostre acessível. O consumidor também pode ter uma visão mais curiosa, ir atrás de informação e fazer compras direto com o produtor. Enfim, existem algumas saídas para que o preço se torne mais acessível, mas depende muito do consumidor, que já começou a rever seus hábitos alimentares e está fazendo com que esse mercado aqueça.

Por: Caio Saviolo